Mitologia grega mostra que a chave para a satisfação profissional é escolher abraçar o processo, e não mirar somente no resultado.
Na mitologia grega, Sísifo foi um rei astuto demais para o gosto dos deuses, chegando a enganar a própria Morte. Como castigo, Zeus o condenou a empurrar uma enorme pedra até o topo de uma montanha, apenas para vê-la rolar de volta toda vez que ele se aproximava do cume, recomeçando eternamente.
Os dilemas do mundo corporativo, no fundo, não passam de um reflexo da boa e velha natureza humana e do que filósofos e pensadores já descreviam há quase três mil anos. A mitologia grega, em particular, nos oferece analogias surpreendentemente atuais.
E quem nunca se viu recomeçando ciclos sem fim, dia após dia, mês após mês, ano após ano? As empresas precisam, sim, de inovação e disrupção, mas sejamos honestos, há também muito de um eterno rolar de pedra morro acima.
Muitos de nós se submetem à tortura sem fim do trabalho à espera de um salário no final do mês e um bônus no final do ano. Mas para que tudo isso faça sentido, “é preciso imaginar Sísifo feliz”. No fechamento de “O Mito de Sísifo” (1942), o escritor Albert Camus propõe uma virada inesperada: a rebeldia não está em escapar da pedra, mas em escolhê-la conscientemente. O sentido se cria no ato de empurrar, não em alcançar o topo da montanha.
E se tentássemos ver sentido no processo? Sentir satisfação na execução da tarefa, sem ter 100% do nosso foco na próxima promoção, no próximo bônus e no reconhecimento externo? Fico sempre pensando na dicotomia entre a alegria que as pessoas sentem quando são finalmente aprovadas num processo seletivo, numa euforia que dura semanas, versus o descontentamento que vemos frequentemente em quem está empregado.
O mesmo trabalho que era um sonho na sexta-feira vira fardo na segunda. Será mesmo que estamos fadados a duelar entre o sofrimento do desemprego e do emprego? Não me parece fazer sentido. A mesma lógica vale para quem empreende: o foco oscila entre picos e vales de demanda, entre um perfil de cliente e, e a pedra também não para.
E se a promoção e o sucesso financeiro fossem a consequência, e não a meta? E se, em vez de viver numa espera eterna pelo final da jornada, passássemos a aproveitar o percurso?
Você pode até estar pensando: “Ah, Fernanda, mas nem todo mundo trabalha com o que gosta, nem recebe uma remuneração capaz de proporcionar conforto e realizações. Nem todos têm lideranças inspiradoras ou realizam trabalhos cheios de significado.” Verdade, mas também não faltam exemplos de pessoas que se destacam fazendo com leveza e alegria trabalhos muito simples. Muitas vezes, a oportunidade de uma promoção é dada a pessoas que não atendem necessariamente a todos os requisitos da vaga, mas que buscam realizar com excelência e entusiasmo as suas responsabilidades.
Não estou querendo dizer que a alegria de viver e a satisfação intrínseca substituam o vil metal. Salário justo e bônus adequado à entrega realizada são fatores higiênicos. Meu ponto é que o pagamento abaixo de patamares de mercado realmente pode destruir o engajamento, mas o pagamento acima dele, isolado, não constrói sentido. O sentido precisa vir de dentro, e o reconhecimento financeiro vem depois (seja dentro da empresa ou no mercado). Segundo o relatório State of the Global Workplace 2025, da Gallup, o desengajamento global custa cerca de US$ 8,9 trilhões em produtividade por ano — o equivalente a 9% do PIB mundial. Um número que diz mais sobre falta de sentido do que sobre a falta de bônus.
É inerente ao ser humano ter desejos, aspirações, planos e sonhos. Mas talvez o que gere diferencial entre as pessoas seja o sentido de realização e propósito durante a escalada da montanha, porque a pedra vai continuar rolando e as metas ainda serão resetadas em janeiro. E talvez a função dos líderes não seja a de procurar uma pedra mais fácil para o time empurrar, e também não seja somente a de orientar sobre a melhor rota para a subida, mas sim garantir que cada um possa olhar a própria pedra e conseguir vê-la como sua. Neste caso, o engajamento e a realização estarão presentes. Sem isso, qualquer bônus rola morro abaixo junto com a pedra.
Fernanda Abilel é professora na FGV e sócia-fundadora da How2Pay, consultoria focada no desenho de estratégias de remuneração.